Os Campos Gerais e sua História Ambiental


Aspecto dos Campos Gerais nos anos 1930, Ponta Grossa-PR. Foto de Reinhard Maack

Aspecto dos Campos Gerais nos anos 1930, Ponta Grossa-PR. Foto de Reinhard Maack

A região denominada Campos Gerais do Paraná, não tem uma definição única e permanente, visto que esta tem sido modificada, atendendo a necessidades e conveniências de uma identificação regional dentro de um estado com marcante dinâmica territorial nas últimas décadas.

A expressão “Campos Gerais do Paraná” foi consagrada por MAACK (1948), que a definiu como uma zona fitogeográfica natural, com campos limpos e matas galerias ou capões isolados de floresta ombrófila mista, onde aparece o pinheiro araucária. Nessa definição, a região é ainda limitada à área de ocorrência desta vegetação que a caracteriza situada sobre o Segundo Planalto Paranaense, no reverso da Escarpa Devoniana, a qual o separa do Primeiro Planalto, situado a leste (cf. mapa).

Portanto, trata-se de uma definição que integra critérios fitogeográficos e geomorfológicos, que por sua vez exprimem a estrutura geológica e natureza das rochas, responsáveis pelos solos rasos e arenosos, pouco férteis, que favorecem a vegetação de campos, e o aparecimento do limite natural representado pela Escarpa Devoniana, um degrau topográfico que em vários locais ultrapassa 300 m de desnível.

 

 

1: Escarpa da Serra Geral; 2: Escarpa Devoniana;  3: Extensão original dos campos naturais no Segundo Planalto Paranaense.

1: Escarpa da Serra Geral; 2: Escarpa Devoniana;
3: Extensão original dos campos naturais no Segundo Planalto Paranaense.

 

 Identidade Histórica e Cultural 

Entretanto, a identidade histórica e cultural da região dos Campos Gerais remonta ao século XVIII, quando, graças aos ricos pastos naturais, abundância de invernadas com boa água e relevo suave, foi rota do tropeirismo do sul do Brasil, com o deslocamento de tropas de muares e gado de abate provenientes do Rio Grande do Sul com destino aos mercados de São Paulo e Minas Gerais.

Nessa época, os campos naturais da região tornaram-se muito disputados, e a coroa portuguesa começou a expedir cartas de sesmarias em favor de homens a ela fiéis e de prestígio político local. O ciclo do tropeirismo, que se estendeu ao início do século XX, ainda hoje tem grande influência na cultura e costumes dos Campos Gerais do Paraná, cuja população preserva muitos hábitos herdados dos tropeiros, em sua maioria de origem gaúcha.

Mais recentemente, outras definições têm sido adotadas para os Campos Gerais, atendendo a objetivos e interesses diversos, resultando em delimitações também diferentes. Para a Associação dos Municípios dos Campos Gerais – AMCG prevaleceram critérios econômicos e políticos. Para a UEPG, têm prevalecido critérios de identidade histórica e geográfica, além da área de influência da Universidade. Para os consórcios de gestão ambiental, por exemplo, o COPATI (Consórcio Intermunicipal para Proteção Ambiental da Bacia do Rio Tibagi), ligado ao SEHR – Sistema Estadual de Recursos Hídricos, tem prevalecido a área da bacia hidrográfica do Rio Tibagi (Dicionário Histórico e Geográfico dos Campos Gerais).

 

 Estado Atual dos Campos Gerais 
Invasão de Pinus no Parque Estadual do Vila Velha. Foto: Alessandro Casagrande, 2006.

Invasão de Pinus no Parque Estadual do Vila Velha. Foto: Alessandro Casagrande, 2006.

O estado atual de conservação dos campos no Paraná resulta de processos históricos de uso e ocupação do solo, estando muito relacionado com a expansão agropecuária, desde o ciclo do tropeirismo. Hoje, resta pouco mais de 9 % da vegetação original da estepe gramíneo-lenhosa dos Campos Gerais, sendo o restante convertido em outros usos (SOS Mata Atlântica, 1998).

Os remanescentes desta vegetação encontram-se, na sua maioria, em áreas de relevo acidentado onde a mecanização agrícola não é possível, e em áreas de preservação como Reserva Legal e Áreas de Proteção Permanente, As porções menos fragmentadas e atualmente conservadas encontram-se dentro de Unidades de Conservação estaduais e federais.

A ameaça vigente aos ecossistemas de campo é efetivamente a ação antrópica que culmina na sua descaracterização por florestamento de exóticas, conversão dos campos naturais em lavouras plantadas, pecuária e o descontrole das queimadas (DALAZOANA; BARBOSA; MORO, 2009).

 

Conversão dos Campos Gerais em agricultura restringindo as últimas áreas naturais desta formação no estado. Foto: Alessandro Casagrande, 2002

Conversão dos Campos Gerais em agricultura restringindo as últimas áreas naturais desta formação no estado. Foto: Alessandro Casagrande, 2002